Marcolino’s Field Notes

Field NotesInfraestrutura de agentes

Por que seu agente muda de comportamento quando você troca o modelo

6 de agosto de 2026 · 14 min de leitura

Em maio de 2026 um pesquisador da KailosLab rodou 432 execuções para testar uma coisa que parece óbvia. Ele deu ao Gemini 2.5 Flash uma instrução de duas linhas e mediu quantas das 24 tarefas o modelo acertava. Deu 95,8%. Depois trocou por um processo de seis etapas com lista de arquivos permitidos, critério de sucesso e especificação de verificação, que é o que qualquer um de nós escreveria depois de um mês apanhando em produção.

O acerto caiu para 66,7%. Das 8 falhas, 8 foram violação de formato: o modelo entendeu a tarefa e respondeu narrando o raciocínio em vez de emitir o JSON.

A equação que organiza tudo

Agente é modelo mais harness. O harness é a infraestrutura em volta do modelo: system prompt, definição e formato das ferramentas, loop de execução, gestão de contexto, política de compactação, tratamento de erro e verificação.

Parte da política do agente está nos pesos. A outra parte está no harness. Quando um paper reporta ganho de benchmark sem trocar o modelo, quase sempre o que mudou foi o harness.

Daí o corolário desconfortável: trocar de modelo sem recalibrar o harness é trocar metade da política do agente e manter a outra metade errada.

O que o experimento mediu

O HEAT-24 cruzou seis modelos, quatro faixas de capacidade e três níveis de harness sobre 24 tarefas com verificação binária via git diff.

HEAT-24 · VTSR por modelo e condição de harness
ModeloLightBalancedStrict
Gemini 2.5 Flash95.8%58.3%66.7%
Qwen3.5-122B (reasoning)87.5%75%91.7%
GPT-OSS-120B95.8%95.8%87.5%
Qwen3.5:2B0%58.3%4.2%
Gemma4:e2B91.7%91.7%91.7%

Ordene por qualquer coluna. n=24 por célula, k=1 repetição — evidência preliminar, e os intervalos de Wilson são largos.

Três leituras que a tabela sustenta sozinha.

O modo de falha é diagnóstico. format_violation indica harness pesado demais para o modelo, e respondeu por 25 das 26 falhas dos modelos capazes. wrong_file indica harness leve demais.

Contagem de parâmetro não prevê estabilidade. O Gemma4:e2B, com 2B de parâmetros, entrega 91,7% nas três condições, mesma estabilidade de um modelo 60 vezes maior. A variável que separa os dois é qualidade de instruction-tuning.

Reasoning inverte a curva. O Qwen3.5-122B vai pior no balanced e melhor no strict, e sob strict a latência cai de 35,4 s para 23,3 s. Restrição explícita encurta a cadeia de pensamento.

As ressalvas, que também são notícia

O próprio autor classifica o resultado como preliminar: k=1 repetição, n=24 por célula, e intervalos de Wilson largos — 58,3% carrega [36,6; 78,2]. Cada faixa de capacidade é representada por um único modelo, então comparação entre faixas é exploratória.

Isso não invalida o achado. Muda o que dá para afirmar: existe um efeito grande e reprodutível dentro de cada modelo testado, e não uma lei sobre categorias de modelo.

O eixo do paper é o eixo do mercado

As três condições testadas têm correspondente direto em produto.

PiDeepAgents
Posiçãolightstrict
System promptabaixo de 1.000 tokensextenso, multi-estágio
Ferramentasread, write, edit, bashplanejamento, filesystem, shell, subagentes, memória, skills
Teseo modelo se carregao harness carrega o modelo

O DeepAgents se declara model-agnostic, e é verdade: roda com qualquer LLM que faça tool calling. Só que compatibilidade de API descreve interface, e o mesmo harness entrega 95,8% com um modelo e 58,3% com outro.

Model-agnostic é promessa de interface, não de comportamento.

Faça a conta na sua operação

O paper mede acerto, não custo. Mas a decisão de harness quase sempre vira decisão de modelo, e aí a conta muda de ordem de grandeza.

Quanto isso custa na sua operação

ModeloCusto por tarefaCusto por mêsRelativo

Preços de tabela por milhão de tokens, sem desconto de cache nem de volume. Serve para ordem de grandeza, não para orçamento.